Nem tudo é TDAH, você sabia?
- Marcelo Hugo da Rocha

- 1 de dez. de 2024
- 3 min de leitura
Atualizado: 7 de dez. de 2024
Quando eu ainda estava na faculdade de Psicologia tinha certeza de que as pessoas não queriam ser "catalogadas" por transtornos mentais, já que a terapia tinha deixado grande parte do seu passado como algo "só para loucos" ou "só para quem precisa". Então, se alguém não tinha o que "tratar" de grave, para que ir à terapia?
Eu estava bem enganado.
Mas antes de tratar deste engano, continuo dizendo que a popularização da Psicologia - como o Direito, pois as pessoas têm uma melhor ideia dos próprios direitos - tem dois lados: um bom e outro ruim. O bom, estamos vencendo muitos tabus, como a terapia não é "só para loucos". A terapia hoje está associada a melhorar a saúde mental e não, necessariamente, para "curar" algo. Ou seja, é um processo contínuo de bem-estar. É um investimento, como quem se exercita semanalmente numa academia para a saúde física. Alguém larga a academia porque chegou onde gostaria de estar? Não.
E o lado ruim? Ele está relacionado com o "bem enganado". O fato é que muita gente está opinando sobre tudo e todos, o que recai ao erro que é impossível saber de tudo, nem mesmo um psicólogo formado está preparado para todas as condições existentes. E quando se fala de saúde mental há um risco maior de gerar resultados piores do que benéficos. Mas vale o engajamento, não é? Com isso, o vocabulário do leigo hoje está enriquecido com um caldo de letras: TOC, TCC, TDAH, TAG, TEPT, TOD, TEA,...
E como sei disso? O paciente chega na sessão já autodiagnosticado. Basta abrir o Instagram e lá está cheio de testes e posts indicando as características dos transtornos citados. O mais interessante é que os pacientes chegam tranquilos, diferentes de quem entra no consultório médico adentro com a receita pessimista do Dr. Google, representação do Mensageiro da Morte.
Porém, no consultório do psicólogo a realidade é diferente: "- Descobri que tenho TDAH e agora faz todo o sentido porque sou multitarefa". Em outras palavras, há uma busca incessante do "porquê sou assim" e os transtornos representam a varinha mágica para tirar todo o peso das costas das "coisas que eu faço sem pensar". Hoje parece que o TDAH é o "salvador da pátria" que explica tudo, da procrastinação à falta de interesse por estudar, por exemplo.
Não estou dizendo que não é TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), mas pode ser muita coisa que não é TDAH.
Um exemplo simples? O tédio. É uma emoção que está faltando nas prateleiras emocionais. Ninguém sente mais tédio, pois no primeiro segundo que ela surge, saca-se um celular e logo ela é eliminada. O que acontece, é que muita gente foge do tédio como vampiro da cruz e esta agitação é confundida com TDAH. Ninguém mais quer ficar quieto com os próprios pensamentos, sem fazer absolutamente nada. Produtividade e eficiência são as irmãs gêmeas da voz autocrítica que não nos deixa em paz nunca. Sempre precisamos estar fazendo qualquer coisa, preferencialmente, mais de uma. Assistir apenas TV sem um celular na mão é para poucos.
Já ouvi declarações como: “Tenho TDAH porque não consigo parar para estudar”. E, quando pergunto o que a pessoa faz para evitar o estudo, a resposta costuma ser: “Vou para o celular.” Quando pergunto se o que ela estuda é chato, a resposta é sempre sim. Entre uma refeição deliciosa e um prato de chuchu com rabanete, o que você escolheria? Sua escolha indicaria TDAH?
Eu entendo que as "caixinhas" ou rótulos ajudam muitas pessoas a se entenderem melhor. Por exemplo, eu me identifico com meu signo: canceriano típico, emocional e sensível. Mas o perigo está em transformar um transtorno em desculpa ou terceirizar responsabilidades: “A culpa é do meu TDAH.” A culpa só existe quando não fazemos nada para melhorar.
O papel do psicólogo é ajudar – seja diagnosticando, seja indicando o tratamento adequado quando um transtorno realmente está presente. No meu consultório, meus pacientes aprendem que não são rótulos ambulantes. São pessoas no comando de suas vidas, ainda que, às vezes, precisem lidar com um passageiro incômodo, que pode desembarcar ou simplesmente calar-se um dia.





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